sábado, 15 de fevereiro de 2014

Cartas não enviadas...

Depois da noite em que teve pesadelos, Holmes não se manifestou mais. Por um momento, eu cheguei a pensar que tivesse finalmente deixado Baker Street para onde quer que os fantasmas vão. E fiquei muito magoada. Quer dizer, ainda não saía da minha cabeça que ele quase deixou escapar o nome de uma mulher com quem eu era muito parecida... Uma mulher na vida de Sherlock Holmes. Acho que as pessoas não entenderiam o quanto isso é revolucionário. Pior, essa estranha poderia ser...
Ana, já falamos sobre isso - insistia minha consciência. Anne Bergerac é uma personagem fictícia que existe apenas na sua imaginação. Talvez, mas até pouco tempo atrás Sherlock Holmes também existia apenas na minha imaginação - eu retrucava. Por que a criatura de Doyle poderia existir de fato como ele afirmava e a minha não? Só porque eu não vendi um milhão de cópias? Só porque sou quase anônima? Vivem estimulando as pessoas a serem criativas, mas para quê? Tudo o que conseguem no final é atingir um estado de loucura irrecuperável.
Contudo, estava prestes a descobrir que até mesmo eu posso errar de vez em quando quanto a minha própria lógica.
Era noite de quinze de Fevereiro e chovia "cats and dogs" - expressão idiomática que eu me recuso a traduzir como "chovia muito". Enfim, a chuva me prendia dentro de casa, pois, na minha nada humilde opinião, o melhor para se estar durante uma chuva é no conforto de seu lar. Enquanto isso, me ocupei com alguns baús antigos que estavam guardados numa espécia de sótão. Havia vários papéis ali dentro com nomes de estranhos... deveriam ser os arquivos de Holmes sobre as mentes criminosas da Inglaterra.
Outros continham a caligrafia solta que eu resolvi identificar como a de Watson. Os casos de Holmes, primeiras edições. Muitos assim, até que avistei um conjunto de envelopes amarrados delicadamente com uma fita vermelha. Cartas... mas sem endereço de destinatário no envelope, apenas o remetente e a tinta estava muito borrada para ser lida. Apressei-me então para abri-los. Para a minha surpresa, era a caligrafia que resolvi identificar como a de Holmes... rebuscada e elegante...
"Minha difficile et jeune fille,
Creio ter lhe causado muita dor pela minha decisão no último mês. Isso pode parecer uma brincadeira de mau gosto para você num primeiro momento, mas saiba que essa carta é legítima e que quem escreve é o seu pomposo detetive. Entenderei perfeitamente se quiser queimá-la e não seguir com a leitura, afinal, eu também me desprezaria se estivesse na sua situação...
Não espero que entenda os motivos que me guiaram a cair daquele penhasco e permitir que você chorasse a minha morte sozinha até a chegada de Watson e Lestrade, sinceramente. Muitos dos meus inimigos ainda estão à solta e desde que você sofreu aquele acidente no incêndio, fiquei pensando se não seria melhor sumir por um tempo para que eles perdessem o interesse em mim.
Eu sei o quanto você gosta de ser vista como uma criatura forte, uma exceção a sensibilidade feminina, mas a mim, minha querida, nunca conseguiu enganar. Sei que irá cair num estado de depressão instável do qual nem mesmo o nosso bom amigo doutor irá conseguir te resgatar... Não faça isso, minha charmante fille. Embora sinta que não necessite mais da minha permissão para qualquer coisa, dou-lhe, mesmo assim, sua liberdade para que siga em frente... Eu não mereço que faça isso, Anne.

Perdo-me,

Holmes."
Anne! O nome que estava na carta... a minha Anne... Ela viveu? Alcancei a outra carta do monte e comecei a lê-la.
"Minha querida,
Acabei de lhe escrever uma carta e decidi que não a enviarei. Disse coisas que não diria se estivesse olhando para você... Acho que os ares daqui estão me deixando confuso. Eu explico. Disse que lhe concedia liberdade para seguir em frente com sua vida e para que não perdesse tempo chorando por mim. Sim, eu sei que está rindo agora. Não disse que estava confuso? Ora, nós dois sabemos que não existe ninguém melhor para nós dois do que nós dois. E aqui lhe dou total razão em me chamar de pomposo... como sempre fez... Posso perguntar, será que você notava como eu sempre reprimia um sorriso ao ouvi-la me chamando assim?
Em todo caso, o que me faz ter essa certeza pomposa, ao contrário do que Watson pode dizer, não é o sentimentalismo barato que tanto parece divertir a sociedade inglesa. É a dedução, minha cara. O trabalho da minha vida aplicado a você. Desde que chegou em Baker Street, se alguém pegasse algum dos meus pertences ou parasse para me analisar, teria suas conclusões voltadas para um único nome. Anne Holmes. De todos os meus casos mais célebres sempre guardei uma recordação. Você foi a melhor de todas elas.
Logo, é claro que eu não poderia deixar que outra pessoa - que com certeza jamais cuidaria tão bem de você quanto eu - a tirasse de mim. Seria um grande contra senso. Chore por mim, minha querida, pois eu também sentirei a sua ausência todos os dias. Talvez... ou melhor... com certeza nunca disse em voz alta ou demonstrei com todos os gestos necessários o quanto a amo e como eu aprendi com as suas pequenas filosofias sobre a vida. Eu era apenas um cérebro, minha Anne, até você aparecer e me fazer entender o quanto é bom também ser um homem com braços para abraçá-la.
Je t' aime,
Sherlock.
Eu não consegui não chorar com a declaração final da última carta. E ainda havia muitas outras cartas para serem lidas, todas iniciadas com um vocativo carinhoso e terminadas ou com um pedido ardente de perdão ou com uma declaração eloquente em francês. O conteúdo passou a variar do mais contido para o exagerado passional numa escala muito além da permitida para Sherlock Holmes.
- A senhorita realmente gosta de se meter na vida dos outros, não é? - indagou a voz de Holmes, sentado numa das cadeiras de frente para mim que ainda me encontrava no chão ao lado do baú.
- Ela chegou a receber essas cartas? - não ia entrar no fato de que descobrir a existência da minha personagem estava me deixando louca. Então, resolvi perguntar apenas o que gostaria de ouvir depois de um ataque.
- Não. - ele respondeu com pesar. - Mycroft e eu chegamos à conclusão de que seria melhor eu permanecer morto para todos, inclusive para ela. - Holmes parou por um momento. - Posso dizer que foi meu maior arrependimento dentro da minha profissão... fazê-la sofrer daquele jeito...
- Então, ela nunca chegou a saber que, até aparecer, você tinha sido apenas um cérebro? - perguntei com um sorriso gentil.
- Não com essas palavras, mas, o bom em ter uma mente como a minha, senhorita Lopes, é que você acaba sendo capaz de pensar não só na melhor forma de pegar o culpado, mas também em várias formas de demonstrar o quanto ama alguém. - ponderou ele sorrindo para mim pela primeira vez desde que chegara a Baker Street.
- Deixava ela acompanhá-lo em todos os seus casos... e ganhar as discussões?
- E voltei mais cedo do meu exílio. Sim. - ele assentiu.
- Talvez não seja tão pomposo assim. - disse para provocá-lo enquanto guardava as cartas de volta no baú. - Só precisa do incentivo certo da companhia certa.
- E o que vai fazer? Treinar seu tiro pela casa? Não estamos mais em 1894.
- Não me provoque, Holmes. - brinquei usando o típico tom que, na minha imaginação, Anne usaria.

Um comentário:

  1. Aquele momento não tão estranho e nem inesperado onde Ana e Anne parecem estar se fundindo na mesma pessoa. kkk

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